Dizem que quando um ser humano se priva de um sentido, desenvolve demasiadamente outro como uma forma de compensação. Monique experimentou intensamente algo parecido em sua louca juventude, com 22 anos chegou à sua cidade um comerciante da capital, Gerson, 38 anos, divorciado e enlutado pela recente morte da filha de 15 anos. O caso torna-se mais trágico ainda quando começa a circular pela cidade que a assassina foi a própria mãe, acometida por um surto psicótico, ou diabólico. Uma pobre alma. Gerson passava o dia no armazém atendendo seus clientes, com um ar tímido e curioso, principalmente curioso pelas belas jovens que existiam na cidade, “meninas” que formaram seus corpos nas inclinadas ladeiras dessa pequena cidade do interior, que aprenderam a nadar no poço das cachoeiras, e que andam descalças pela rua... Monique (com certeza uma das mais belas representantes da cidade) trabalhava com a mãe que fazia bolos e salgados para festas, era a responsável pela compra dos materiais no armazém de Gerson. Tinha o costume de fechar os olhos e colocar as mãos nos sacos de cereais e de sementes, adorava sentir a textura dos grãos e por vezes enfiava o braço todo no saco, inebriada pelo prazer que isso lhe causava. Ao perceber que havia passado do limite que considerava aceitável para sua loucura, olhava para Gerson e pedia desculpas sorrindo, neste momento o comerciante também sorria e falava “não tem problema, só olhei porque achei curiosa a sua expressão”. Uma peculiaridade do armazém eram as músicas que tocavam no rádio, totalmente destoantes do clima musical da cidade, por vezes uma voz negra rasgava o local, um piano sensual atravessava o corpo de quem entrava para fazer suas compras, e Monique começou a gostar de poder saciar sua tara ao som daquela música envolvente, e na companhia daquele cúmplice agradável. Começou a freqüentar a loja e tornou-se amiga do comerciante, descobriu que embaixo do seu balcão haviam alguns objetos, uma garrafa de aguardente artesanal, um canivete, um revólver e um pano preto. Diante destes pediu um trago da bebida e perguntou para que o revólver, ao que Gerson lhe respondeu que sua ex-mulher havia jurado lhe matar e que como a polícia ainda não a havia encontrado achou seguro deixar um por perto. Olhando os objetos de seu próprio balcão Gerson disse, “e o que mais lhe chama atenção ?”, e Monique falou “bom, quase todo mundo que fuma tem um canivete consigo, a aguardente não precisa de explicação, só esse paninho preto que não tem muito sentido”, Monique falava com metade do braço dentro de um saco de sementes de girassol, ao que Gerson sugeriu “Monique, me acompanha em mais uma dose?” a moça balançou que sim com a cabeça e o comerciante serviu dois copos, fez com que ela virasse tudo de uma vez, então tomou a sua também, a menina fez uma careta e disse já estar um pouco alta. Gerson então falou “acho que podemos achar uma utilidade pra esse pano, me permita” e então vendou os olhos de Monique, esta riu e disse “ e se alguém entrar?” , Gerson ignorou os cuidados e começou a conduzir a menina pelo armazém, colocando-a diante de diversos materiais, diversas texturas, e lhe era impossível até então imaginar que existisse todo esse mundo ao alcance de suas mãos. O álcool já havia amolecido sua resistência e ela se deixava conduzir, suas mãos não tinham vontade, tinham apenas sensações. A última coisa que Monique tocou naquele fim de tarde foi um rosto com a barba mal feita, que lhe coçava a palma da mão, e ainda com os olhos fechados teve vontade de encostar esse rosto ao seu, quando o fez, os lábios também se tocaram e um pássaro preto entrou na loja fazendo muito barulho. Os dois riram muito da aparição e serviram um punhado de sementes ao pássaro intrometido.
Depois desse dia Monique passara todas as tardes daquela semana com Gerson, e sempre aparecia aquele belo pássaro preto , as aventuras táteis começaram a exceder os limites do ambiente, suas mãos agora percorriam o corpo de Gerson atrás do balcão, e as mãos de Gerson percorriam Monique por baixo do vestido, atrás do balcão também, tudo muito discretamente. A única coisa impossível de disfarçar era a vermelhidão dos rostos, o suor que lhes escorria da testa e o cheiro de cachaça e sexo que já impregnava o ambiente no fim da tarde. Na sexta, quando o armazém ia fechar Gerson propôs “Passe a noite comigo, eu quero continuar nesse estado maluco que estamos”, Monique nem pensou “eu também quero” e logo lhe entregou o pano para que ela não visse nada do que aconteceria dali para a frente. O comerciante fechou a porta do armazém e conduziu a moça até o depósito, beijava-a inteiramente, não só a ela toda, mas todo ele a beijava, eles beijavam com a boca, os braços, as pernas, os quadris, eles se invadiam, se visitavam, e conforme as roupas acaloradas abandonavam os corpos estes liberavam fluídos e sons, não enxergar era o maior potencializador de prazer possível para Monique, no instante em que Gerson a penetrou seu desejo era cegar para sempre, que necessidade havia de enxergar? Pediu mais, e o parceiro continuou, transaram a segunda vez, a terceira, exploraram os limites do próprio corpo e da própria criatividade, na quarta vez ouviram um barulho no depósito, um pássaro, o pássaro que os vigiava toda tarde estava dentro do armazém. Deram risada dessa cumplicidade “ele nem que quisesse poderia nos delatar!”. Então Monique pediu mais, “me amarre ao pé da mesa, quero ficar imóvel enquanto você explora cada pedaço de mim”, Gerson amarrou suas duas mãos nos pés de uma escrivaninha, vendou seus olhos e fez tudo o que queria com a moça, neste momento os dois eram escravos e senhores, ela por mandar que ele fizesse tudo o que desejasse e ele por obedecer, ela por estar submissa à vontade de Gerson, e ele por expor todo o seu desejo a outro ser humano. Foi um momento único na vida dos dois, de intenso gozo mútuo, Monique dormiu desejando nunca mais ver a vida como antes, dormiu amarrada, e Gerson, nu, foi até a cozinha buscar fumo e água.
O pássaro espreitava a cena toda e quando Gerson saiu, pousou sobre o rosto de Monique, esta acordou assustada e com os olhos vendados, o pássaro então falou com voz de mulher “eu sou a realizadora dos seus desejos mais íntimos”, tirou a venda dos olhos da menina, esta viu o pássaro preto e não conseguiu suspirar uma única palavra, o pássaro arrematou “você nunca mais vai precisar desse pano” e com o bico arrancou os dois olhos da moça que não podia se defender. Monique gritava enlouquecida de dor e de pânico , quando Gerson entrou no depósito e viu o pássaro partindo por uma janela que até este momento não sabia existir no local.


