quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Os olhos de Monique

Dizem que quando um ser humano se priva de um sentido, desenvolve demasiadamente outro como uma forma de compensação. Monique experimentou intensamente algo parecido em sua louca juventude, com 22 anos chegou à sua cidade um comerciante da capital, Gerson, 38 anos, divorciado e enlutado pela recente morte da filha de 15 anos. O caso torna-se mais trágico ainda quando começa a circular pela cidade que a assassina foi a própria mãe, acometida por um surto psicótico, ou diabólico. Uma pobre alma. Gerson passava o dia no armazém atendendo seus clientes, com um ar tímido e curioso, principalmente curioso pelas belas jovens que existiam na cidade, “meninas” que formaram seus corpos nas inclinadas ladeiras dessa pequena cidade do interior, que aprenderam a nadar no poço das cachoeiras, e que andam descalças pela rua... Monique (com certeza uma das mais belas representantes da cidade) trabalhava com a mãe que fazia bolos e salgados para festas, era a responsável pela compra dos materiais no armazém de Gerson. Tinha o costume de fechar os olhos e colocar as mãos nos sacos de cereais e de sementes, adorava sentir a textura dos grãos e por vezes enfiava o braço todo no saco, inebriada pelo prazer que isso lhe causava. Ao perceber que havia passado do limite que considerava aceitável para sua loucura, olhava para Gerson e pedia desculpas sorrindo, neste momento o comerciante também sorria e falava “não tem problema, só olhei porque achei curiosa a sua expressão”. Uma peculiaridade do armazém eram as músicas que tocavam no rádio, totalmente destoantes do clima musical da cidade, por vezes uma voz negra rasgava o local, um piano sensual atravessava o corpo de quem entrava para fazer suas compras, e Monique começou a gostar de poder saciar sua tara ao som daquela música envolvente, e na companhia daquele cúmplice agradável. Começou a freqüentar a loja e tornou-se amiga do comerciante, descobriu que embaixo do seu balcão haviam alguns objetos, uma garrafa de aguardente artesanal, um canivete, um revólver e um pano preto. Diante destes pediu um trago da bebida e perguntou para que o revólver, ao que Gerson lhe respondeu que sua ex-mulher havia jurado lhe matar e que como a polícia ainda não a havia encontrado achou seguro deixar um por perto. Olhando os objetos de seu próprio balcão Gerson disse, “e o que mais lhe chama atenção ?”, e Monique falou “bom, quase todo mundo que fuma tem um canivete consigo, a aguardente não precisa de explicação, só esse paninho preto que não tem muito sentido”, Monique falava com metade do braço dentro de um saco de sementes de girassol, ao que Gerson sugeriu “Monique, me acompanha em mais uma dose?” a moça balançou que sim com a cabeça e o comerciante serviu dois copos, fez com que ela virasse tudo de uma vez, então tomou a sua também, a menina fez uma careta e disse já estar um pouco alta. Gerson então falou “acho que podemos achar uma utilidade pra esse pano, me permita” e então vendou os olhos de Monique, esta riu e disse “ e se alguém entrar?” , Gerson ignorou os cuidados e começou a conduzir a menina pelo armazém, colocando-a diante de diversos materiais, diversas texturas, e lhe era impossível até então imaginar que existisse todo esse mundo ao alcance de suas mãos. O álcool já havia amolecido sua resistência e ela se deixava conduzir, suas mãos não tinham vontade, tinham apenas sensações. A última coisa que Monique tocou naquele fim de tarde foi um rosto com a barba mal feita, que lhe coçava a palma da mão, e ainda com os olhos fechados teve vontade de encostar esse rosto ao seu, quando o fez, os lábios também se tocaram e um pássaro preto entrou na loja fazendo muito barulho. Os dois riram muito da aparição e serviram um punhado de sementes ao pássaro intrometido.

Depois desse dia Monique passara todas as tardes daquela semana com Gerson, e sempre aparecia aquele belo pássaro preto , as aventuras táteis começaram a exceder os limites do ambiente, suas mãos agora percorriam o corpo de Gerson atrás do balcão, e as mãos de Gerson percorriam Monique por baixo do vestido, atrás do balcão também, tudo muito discretamente. A única coisa impossível de disfarçar era a vermelhidão dos rostos, o suor que lhes escorria da testa e o cheiro de cachaça e sexo que já impregnava o ambiente no fim da tarde. Na sexta, quando o armazém ia fechar Gerson propôs “Passe a noite comigo, eu quero continuar nesse estado maluco que estamos”, Monique nem pensou “eu também quero” e logo lhe entregou o pano para que ela não visse nada do que aconteceria dali para a frente. O comerciante fechou a porta do armazém e conduziu a moça até o depósito, beijava-a inteiramente, não só a ela toda, mas todo ele a beijava, eles beijavam com a boca, os braços, as pernas, os quadris, eles se invadiam, se visitavam, e conforme as roupas acaloradas abandonavam os corpos estes liberavam fluídos e sons, não enxergar era o maior potencializador de prazer possível para Monique, no instante em que Gerson a penetrou seu desejo era cegar para sempre, que necessidade havia de enxergar? Pediu mais, e o parceiro continuou, transaram a segunda vez, a terceira, exploraram os limites do próprio corpo e da própria criatividade, na quarta vez ouviram um barulho no depósito, um pássaro, o pássaro que os vigiava toda tarde estava dentro do armazém. Deram risada dessa cumplicidade “ele nem que quisesse poderia nos delatar!”. Então Monique pediu mais, “me amarre ao pé da mesa, quero ficar imóvel enquanto você explora cada pedaço de mim”, Gerson amarrou suas duas mãos nos pés de uma escrivaninha, vendou seus olhos e fez tudo o que queria com a moça, neste momento os dois eram escravos e senhores, ela por mandar que ele fizesse tudo o que desejasse e ele por obedecer, ela por estar submissa à vontade de Gerson, e ele por expor todo o seu desejo a outro ser humano. Foi um momento único na vida dos dois, de intenso gozo mútuo, Monique dormiu desejando nunca mais ver a vida como antes, dormiu amarrada, e Gerson, nu, foi até a cozinha buscar fumo e água.

O pássaro espreitava a cena toda e quando Gerson saiu, pousou sobre o rosto de Monique, esta acordou assustada e com os olhos vendados, o pássaro então falou com voz de mulher “eu sou a realizadora dos seus desejos mais íntimos”, tirou a venda dos olhos da menina, esta viu o pássaro preto e não conseguiu suspirar uma única palavra, o pássaro arrematou “você nunca mais vai precisar desse pano” e com o bico arrancou os dois olhos da moça que não podia se defender. Monique gritava enlouquecida de dor e de pânico , quando Gerson entrou no depósito e viu o pássaro partindo por uma janela que até este momento não sabia existir no local.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010


Se tem algo quase paupável que comprava minha neurose é isso:
A primeira crise que tive foi com 14 anos. A sensação foi muito estranha. Inicialmente, seus dedos formigam e você acha que sua pressão está baixando... e come sal! Depois, quando já está melhorando a sensação nos dedos, começa sumir sua visão... não totalmente, somente todo o seu campo visual, vendo apenas o que está em foco, o restante parece um canal mal sintonizado, como se tivesse olhado para a luz e então ela continua piscando, mesmo de olhos fechados. E você acha que a pressão está caindo... e come sal, na esperança de acabar de alguma forma com essa sensação! Acha que vai desmaiar, apesar de não ter exatamente a sensação de "moleza". Vem um certo mal estar na nuca, como naquele filme "espíritos" em que tem um "encosto" pendurado no pescoço... a luz parece estar cinco vezes mais forte, ofuscando qualquer coisa branca como um clarão, e o som incomoda, qualquer ruído parece gritar em seus ouvidos. Quando a visão começa a voltar e você acha que está melhorando ou que, pelo menos, o pior já passou, vem um aperto nas têmporas e você aperta a cabeça na esperança de "encolher" o que parece estar crescendo em sua cabeça.. e esse "algo" cresce, parece que o cérebro não cabe em sua cabeça. E então vem o dilema:

As primeiras vezes que tive, não tive escolha... suportei a dor até meu corpo não aguentar e acabar vomitando. Atualmente o problema tem nome e remédio específico para ela: "ENXAQUECA" e posso optar por tomar o remédio, demasiadamente forte (imaginem vocês o que é necessário para tirar essa dor) e com muitos efeitos colaterais, mas principalmente um sono incontrolável, moleza e.... ânsia de vômito! Que solução! Que dilema!
Tenho crises como essa cerca de duas vezes por mês. Após alguns anos comecei a fazer uma "estatística" das minhas crises. Todo o fenômeno dura, em média de 2 à 4 horas e depois que passa, parece que nada aconteceu! A não ser que o tome o remédio... lembro dele o resto do dia!

Dizem que Nietzsche tinha o mesmo tipo de enxaqueca que eu mencionei que tenho, com "aura", essas "luzes" que somem com a visão, contudo, ele tinha essa sensação por semanas seguidas e com a deficiência de diagnósticos da época, ele encarou a doença como parte da vida dele. Acho que, de forma muito menos intensa, também estou aceitando essa condição como condição de viver.

Enxaqueca não tem cura. Para um possível tratamento, deveria tomar um remédio específico todos os dias, por, pelo menos, um ano... sem poder associar o uso ao álcool (mais um dilema).
A possível causa? Essa é a pior parte. Todos os médicos dizem que o principal fator são questões psicológicas, ou seja, é somático! Sei que muitos médicos dizem isso para qualquer coisa, mas o pior é que, de fato, é infalível: se tenho uma emoção muito forte, muita ansiedade, muito nervoso, muita tristeza, até mesmo muita alegria, passado alguns dias = enxaqueca! Outro dilema: para mim não é tão simples viver os sentimentos intensamente... a não ser que pareça valer a pena passar por tudo que eu disse! Nem sempre vale, mas também cabe ressaltar o principal fator, quando eu mesma me saboto ao tentar controlar tudo isso.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Bom dia Sol

Estou no quarto do computador (porque aqui em casa o computador tem um quarto só pra ele) e são 6h48 minutos, sinto o dia nascendo, o dia mais curto do ano no hemisfério sul, e o dia mais longo no hemisfério norte. Na Bolívia, e em Stonehenge, há pessoas reunidas para contemplar esses fenômenos, oferecer presentes a deuses, renovar as forças, ou simplesmente observar o sol que nasce e cresce no céu. Pela fresta da janela do meu quarto, ou melhor, do quarto do computador, observo o sol do dia mais curto do ano ganhar amplitude no cotidiano, ele estará comigo no meu estágio, no meu percurso de trem e no calor que vai me fazer tomar um banho quase gelado mais ou menos ao meio-dia, ele vai pesar na escolha das minhas roupas, vai interferir nos meus pensamentos, nas minhas leituras, vai entrar em equilíbrio com a brisa do fim da tarde, e neste momento vou querer parar e encontrar algum bom amigo, ou alguma mulher que me ofereça o calor da noite. Enfim, o sol nasceu hoje, e nascerá amanhã e nossa vida se desenrolara sob essa luz real, sempre, não há democracia que faça o sol deixar de brilhar, nem brilhar mais, nem menos. Sob esse ponto de vista astral a humanidade será para sempre uma monarquia.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

"Melhor sermos escravos conscientes do que escravos felizes"

Terça eu escutei essa frase de Marcuse e fiquei pensando (muito) sobre tudo o que ela significa, entretanto, não sei exatamente o que falar sobre ela.
Talvez a consciência exatamente de se saber que não podemos ser felizes me dê esse sentimento de... realidade, talvez... talvez!
O estranho da consciência é a pressão que sinto para não tê-la, o pensamento de "ai, deixa eu me alienar um pouquinho"... e então eu deleto o orkut, mas faço facebook e twitter e blog...
O estranho seria não ter isso, não é?
E o estranho da felicidade é o eterno sentimento de que um dia as coisas vão melhorar, vão ser boas, ou no passado eram muito melhores! E sei que isso todos sentem, caso contrário, não haveria tantas pessoas nesses meios virtuais querendo convencer a todos de como suas vidas são boas, engraçadas, invejáveis, cheia de amigos. Apesar de passar mais tempo no computador do que com pessoas de fato, ainda sentem que são de fato completas e que importa muito dizer a todos os poucos momentos sociais que têm.
Agora acho que busco outros momentos, uma contra-cultura que de fato me traga satisfação...
Estudando antropologia na pós, estudei de fato como doenças como depressão, stress, ansiedade, são apenas consequências de nossa relação com o tempo. Não estou dizendo que não existem... como existem! Mas existem na configuração da nossa sociedade (eu incluiria "capitalista" se não me criticarem demais).

E não sou a Senhora Adorno, cheia de consciência das contradições, e nem quero justificar as atitudes que tenho, mesmo já tendo consciência... mas é como mais ou menos disse Debord "se não posso ser feliz nessa sociedade, estou fadado a usufrir dos seus vis prazeres"...

E como hoje estou cheia de frases de efeito, finalizo
"Um povo que concebe a vida exclusivamente como busca da felicidade só pode ser cronicamente infeliz" Foucault (não me condenem!)

E, é claro, ainda prefiro ser consciente... não levem a mal minhas reflexões bastante fundamentadas, mas pouco coerentes. 


foto: Cafe Scene, 1941, Salvador Dalí.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Mais um texto sem título

Durante a faculdade de psicologia aprendi que ser humano, nos moldes da humanidade do meu tempo, não é nada fácil. Mas não foi o curso de psicologia que me ensinou isso. Por certo algumas leituras ajudaram a pensar essas questões, e mais certo ainda é que determinadas pessoas foram importantíssimas nessa tomada de consciência. Durante a vida já me enganei várias vezes, pensei que o trabalho poderia me trazer satisfação pessoal, pensei que a religião poderia aliviar minhas angústias, pensei que algumas pessoas poderiam ser para sempre o que já foram um dia, pensei que a faculdade me levaria mais longe. Tudo ilusão. Tudo poeira. O tempo desgasta cada rocha de ilusão e esperança onde me agarro. No mundo do homem, não há lugar para o humano. A gente tem que se mexer. Eu tenho que me mexer, essa é a verdade, não faz sentido escrever sobre a humanidade no geral, pois não sinto as dores da humanidade, sinto as minhas dores do contato com ela. Tenho a boa consciência de que assim como foi, deveria ter sido, essa consciência faltou nos momentos a que me refiro, essa consciência disponível e clara sobre a não eternidade dos solos onde pisei, sobre o constante terremoto que é a vida sobre a Terra. Hoje me sinto como o Frajola pendurado no alto de um prédio enquanto o piu piu vai retirando um dedo de cada vez “Esse dedinho foi pra igreja, esse dedinho foi namorar, esse dedinho foi trabalhar... e o último dedinho terminou a faculdade! Xi, acabaram os dedinhos!!!” .

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Escolhendo um candidato...

"Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo" Eça de Queiroz.

Hoje comecei a pensar mais seriamente em que votaria. Eu levo votação muito a sério ((sem ironias!)) e obviamente, o horário eleitoral só serve para rirmos de como a política é algo extremamente banalizado no Brasil ((como tudo que deveria ser sério nesse país)).
Como nunca tive afinidade por nenhum partido propriamente dito, comecei por elimatórias.

Os candidatos que eu for votar não podem ter se envolvido em escandalos de corrupções. Diferentemente da grande maioria, eu não voto nos "menos ruins" ou nos "rouba, mas faz".
Eu não voto em políticos que tiveram a ótima oportunidade de já serem eleitos e, quando foram, aprovaram leis absurdas, revoltantes, que de longe não representa o desejo da maioria! Os que votaram pelo Ato Médico, só por exemplo... tem muitas outras leis que me indignam.
É claro que eu não votaria em pessoas que tem promessas que são visivelmente impossíveis de se cumprir em 4 anos... é duvidar demais da minha inteligência. Ou pior que isso, como a querida candidata a presidência do PV que tem como proposta um site em que teria os dados de todos os pedófilos cadastrados para que soubéssemos onde moram, dessa forma, proteger nossas crianças... em outras palavras, pessoas que fazem suas campanhas em questões preconceituosas, contra os direitos humanos e anticonstitucionais!
Isso é o Brasil! Aqui tudo pode, não importam as leis que garantam nossos direitos!

Acho que o que mais me revolta é o que realmente acontece... talvez o tiririca ganhe, a mulher pêra, o maguila, a outra que tem o número 69... claro que eles têm o direito de se candidatar, como diz a lei, todos podem se envolver na política e o devem fazer, algo asssim... e não digo que eles não tem nada para contribuir, mas eles mesmos se banalizam!
E as pessoas votam! Votam porque não têm o menor interesse em se preocupar com o que vão decidir por eles. E depois reclamam que ninguém faz nada. É claro que não é o tipo de representação que eu gostaria de ter, não é nem o sistema que eu gostaria de viver, mas já que é, por hora, deveríamos, no mínimo nos preocupar com isso.
As pessoas, em sua maioria, não sabem nem a diferença entre votar branco e votar nulo... as pesquisas, inclusive, juntam as informações e parece até que são a mesma coisa.
E não vou ser eu a julgar as pessoas que têm lá os seus motivos para votar em determinadas pessoas.
Já é irritante o suficiente os e-mails anti-petistas que aparecem em minha caixa.

Bom, dessa forma, decidi que, mais uma vez, vou votar nulo!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Entre aspas

Tendo em vista que não vale muito a pena esforçar-se por determinadas coisas, prefiro pensar que hoje, tanto faz escrever um texto “bom” ou “ruim”, que satisfaça “meus” anseios, ou esperanças , ou que expresse o “poético”, o “real”, ou a “mentira”. O que “me” incomoda é essa dor de garganta que “me” deixa febril e mau-humorado, o que importa é que “estou” cansado, pois a noite foi longa, e este corpo que escreve essas linhas tem preguiça. Desculpem o excesso de aspas, mas hoje tudo merece ser relativizado, exceto a dor de garganta.