quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Ditadura, Democracia e Futebol

Demorei muito para começar a escrever algo essa semana, tinha a intenção de continuar na linha dos textos eróticos, porém, outras coisas me mobilizaram nestes dias, uma delas foi o texto do Paulo sobre Ditadura e Democracia, outra foi o centenário do meu time de futebol, o Corinthians. Entre os grandes clubes do Brasil, este sem dúvida esta entre os que tem maior adesão popular, alguns dizem ser a segunda maior torcida do país, e a primeira do estado de São Paulo, mas essa discussão sobre o tamanho de cada grupo não é o que quero priorizar neste texto, o que me chama atenção é o quão abstrata se tornou a relação do torcedor com seu clube, cada um destes grandes carrega consigo uma enorme quantidade de fiéis, e não seria exagero dizer que cada grupo desses é uma nação, que cada campeonato é uma guerra e que cada jogo é uma batalha. O quadro é semelhante ao da primeira guerra mundial, onde os Estados europeus remoíam rancores territoriais a respeito da partilha de territórios roubados e saqueados na Ásia e na África no século XIX. Um completo esquecimento em relação aos seres humanos, explorados e saqueados destes continentes, foi responsável pela morte de milhões de homens e mulheres, inclusive nos países exploradores. Em nome de um sentimento nacional os jovens seguiam para as trincheiras e atiravam contra outros jovens, conviviam em extrema miséria e voltavam mudos pra suas casas, sem nada a transmitir, senão a experiência do trauma.

Ontem no vale do Anhangabaú, aproximadamente 100 000 pessoas participaram da comemoração do centenário corinthiano, teve música, discursos inflamados e contagem regressiva no “show da virada”. O “time do povo” anunciou com grande orgulho a construção de um estádio voluptuoso, para 70 mil pessoas, que provavelmente será palco da abertura da Copa de 2014, tal empreitada custará aproximadamente 450 milhões de reais. O estádio parece ser o símbolo emancipatório desta nação errante, a Jerusalém alvinegra! Este parece ser o sentimento explorado pelos líderes e pelas empresas que se beneficiarão da obra, ou seja, esta é a parte abstrata da história, mas faz-se necessário frisar que o clube comercializará os camarotes do estádio por preços inacessíveis à 99% dos corinthianos, e que esse dinheiro usado para construção do estádio é suficiente para construir 25 000 casas POPulares. A relação do torcedor com seu time parece então ter raízes muito mais profundas do que uma simples diversão de final de semana, pois caso contrário, como não enxergar o óbvio? As emoções mobilizadas em uma final de campeonato, por exemplo, já vitimaram milhares de pessoas nas chamadas “batalhas campais”, nestes dias existem limites, fronteiras que devem ser respeitadas, para a segurança pessoal de quem vai a um estádio de futebol. Diante dessa incapacidade de ver faz-se necessário uma troca de termos, ao invés de “povo”, a palavra “massa” parece mais apropriada, pois esta é composta de partículas homogêneas e manipuláveis. Nessa realidade histórica do futebol de massa podemos ver ressurgir as figuras do herói nacional e do líder populista, no site do jornal “Lance” Andrés Sanches é ovacionado como alguém que fez “uma revolução em três anos”, Ronaldo ainda é esperado para o final do campeonato brasileiro desse ano, e dadas as suas atuais condições físicas, tal expectativa me remete à tão sonhada volta de Dom Sebastião ao trono de Portugal. A mistificação em torno de tudo isso tem sido muito bem aproveitada pelos donos da bufunfa, o véu que encobre a mentira de cada ato pronunciado, de cada construção megalomaníaca, inevitavelmente faz com que nos esqueçamos da miséria cotidiana em que vivemos, aliás, esse véu nos cega de fato, pois nestes tempos as idéias acerca do mundo valem muito mais do que o próprio mundo à nossa frente.

2 comentários:

  1. Adorei suas idéias. A idéia de "Jerusalém alvinegra", é isso mesmo. Ainda assim, você se destacou mais com o seu lado taradão! Hahaha
    Um beijo.

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  2. Curiosidades sobre a Jerusalém corintiana: A obra foi anunciada com uma iniciativa que não levaria verba pública, o que naturalmente é mentira. O obra terá isenção fiscal de $67 mi, e quem bancará o tal benefício é o próprio contribuinte.

    Uma troca justa.

    Abraço Luquita.

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