quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Com os primeiros sinais da luz do dia se levantou, fechou a cortina, preparou um café, abocanhou algumas bolachas e sentou-se na frente do Laptop, essa seqüência de gestos o acompanhava já há alguns anos diariamente, achava que as manhãs ensolaradas poderiam ser o último suspiro daquele texto inacabado, daquela idéia ainda gestante, depois de acender um cigarro passou alguns minutos observando a companheira nua, iluminada por indiscretos raios que ousavam atravessar as cortinas. Se lembrou dos movimentos noturnos, da dança insana, que teve como palco os cômodos do pequeno apartamento. A talentosa amiga de longas pernas oscilava entre o amor romântico de uma noite de núpcias e o iminente ímpeto de estrangular o companheiro entre as coxas quentes. “E como eram quentes”, pensou enquanto degustava o café que acabava de fazer, era um irresistível caminho de brasas que guardava no final uma rosa molhada de chuva, pronta a se abrir acolhedora ao supliciado. Começou. Como se o teclado fosse seu pênis vestia de palavras suas impressões matinais, pontuava as respirações mais intensas com exclamações, descrevia com excesso de vírgulas o processo do desnudamento, o percurso das bocas pelos labirintos do corpo, deixou-se conduzir ao estranho e infinito mundo das onomatopéias, por vezes sentia que a grande exclamação estava perto, então usava três pontos...e recomeçavam as mordidas, as vírgulas, as carícias, as interjeições, os imperativos, o rodamoinho dos seios, o caminho das brasas, a rosa. E no tecido do texto a cena se compunha, não exatamente como tinha ocorrido, mas com novas idéias que surgiam a cada vez que olhava a companheira deitada, nas diversas posições em que esteve durante esse tempo, nos diferentes modos que apreendeu os contornos daquele corpo amigo. Parou por um tempo de escrever, pensava em como terminar o texto, fixou-se distraidamente na panturrilha fugitiva do lençol, exposta aos raios que a essa hora já invadiam com toda força o quarto pelas frestas da cortina, a moça abriu um dos olhos com preguiça, viu o amante com uma mão no pau e outra na “pena”, amável, adivinhou e sorriu da bizarrice, estendeu a perna descoberta até o botão que ligava o som e ficou feliz com a canção que surgiu “Let's get lost, lost in each other's arms...” depois fechou os olhos enquanto a voz e o trompete de Chet Baker inundavam o quarto com mais força do que os indesejáveis raios solares.

9 comentários:

  1. é a fenda inspiradora...
    Valeu Paulão

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  2. Lucas! Não sabia desse seu lado escritor! Gostei muito da descrição da cena, dos detalhes. É envolvente! rs
    Parabéns, querido!!
    Quero ler mais outros seus!!
    Bjos

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Me teletransportei pra este quarto...intrometida....mas curti seu texto!!!

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  5. Cat, fico feliz em ter você como leitora, caríssima amiga!

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  6. Fabi, assim como você, adoro me teletransportar para lugares e histórias que leio , você não é intrometida, pois todo texto é também um convite! a casa é sua!
    Beijo e obrigado pela "visita".

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